segunda-feira, 20 de junho de 2016

A tolerância e o massacre de Orlando





            Não foi só o Pastor Jimenez que comemorou o massacre da boate em Orlando. Muitos outros desses pastores fizeram o mesmo. No Brasil, Feliciano também relinchou, como de costume. Nas redes sociais alguns  cristãos moderados e outros religiosos  criticaram Jimenez e seu medievalismo. (Melhor seria dizer jumentismo, mas deixemos medievalismo que é mais bonito) Dias antes, porém, grupos cristãos apressaram-se em condenar, não os assassinatos, mas a quem dizia que o fanatismo religioso seria a causa primeira da homofobia do atirador. 
            Tanto o atirador fanático quanto Jimenez foram mais sinceros com seus atos e palavras do que os que vieram a público, em nome do cristianismo e do islamismo moderados  condenar o ataque e a posterior fala do pastor californiano. Ambos, assassino fanático e pastor fanático, foram mais coerentes com sua fé e com o livro que lhe dá sustentação. A Bíblia está repleta de condenações à homossexualidade e não deixa dúvida que tal prática é uma abominação e será paga com sangue como se lê em Levítico 20- 13: "Se um homem se deitar com outro homem, como se fosse com mulher, ambos terão praticado abominação, certamente serão mortos, o seu sangue será sobre eles" Ora, qualquer fiel seguidor do livro pode pensar que é um dever punir aqueles que cometem crime (pecado) contra Deus, pois no texto citado não se fala quem deve derramar o sangue dos homossexuais. 
            A condenação à homossexualidade também está presente em Gênesis 13- 13 e 19- 5: em Timóteo 1- 10 (onde os "sodomitas" são arrolados ao lado de roubadores, mentirosos e perjuros); em Reis 24-14, 15-12 e 22- 46: em Isaías 3- 9: em Coríntios 6- 9 e 10  (aí a companhia dos "sodomitas" são os idólatras, os adúlteros, os bêbados, os ladrões, os devassos e os maldizentes); em Deuteronômio 23- 27.
            Os tais cristãos tolerantes, os que dizem que Deus é amor, preferem esquecer o Antigo Testamento quando lhes convém e pescam nos evangelhos exemplos do amor de Cristo como no caso da prostituta que seria apedrejada e foi salva por Jesus que se dirigiu aos apedrejadores com a frase: "Atire a primeira pedra aquele que nunca pecou" ou algo parecido. Jesus perdoou-lhe os "pecados" , mas disse: "Vá e não peque mais". É também assim que os tolerantes tratam da questão da homossexualidade. Se o "pecador" se arrepender e deixar de pecar (deixar de ser homossexual) ele será tolerado, talvez amado e certamente exibido como troféu diante de uma congregação qualquer. Não há aceitação, não há respeito pela diferença. No máximo, perdão. E perdão  sob condições impostas e não negociadas.

           

            

sábado, 11 de junho de 2016

O momento de votar o impeachment é agora

Mesmo os governos ungidos pelo voto, quando assumem tratam logo de abrir o saco de maldades. Despejam todas elas de um só vez sobre as cabeças de seus abestalhados eleitores para regozijo dos que votaram no outro partido ou no outro bando. Depois vêm as carícias. Aos poucos, bem aos pouquinhos.
O primeiro sentimento que fez florescer (de revolta ou de dúvida) logo desaparece. Os cidadãos, eleitores daquele governo ou não, começam a contar com as vantagens oferecidas e esquecem dos prejuízos e direitos perdidos.
O governo fajuto de Temer parece ter um saco de maldades um pouco maior que qualquer outro da era pós ditadura. Talvez só Collor de Merda, com o confisco das poupanças, possa lhe fazer frente em maldades e safadezas.
Como não sabe quanto tempo vai durar no poder, Temer tem uma pressa inusitada em cumprir com as obrigações assumidas dentro e fora do país. Daí o despejo de maldades desproporcional à sua condição de interino e fajuto.
Daqui a pouco, chegará a hora dos mimos. Não para o povo pobre. Isso podemos esquecer, mas para a classe média que tanto quis ver a Presidenta Dilma pelas costas e nem pensou que quem assumiria seria ele. Temer, e não o Willian Bonner. Uma aliviada no imposto de renda, umas facilidades para importação de eletrônicos ou, quem sabe, dólar barato para quem quiser ir à Disney são medidas que podem fazer com que Temer retome algo de popularidade (se é que algum dia teve) e seja visto pelos medioclassistas como um mal menor ante o que nos reservava o comunismo-bolivariano do PT.
Um crescimento da aceitação de Temer por setores da sociedade poderá também fazer com que os senadores, que estão hesitantes quanto ao impeachment da Presidenta Dilma tomem posição de apoio ao golpe e à Temer. É por isso que não entendo a insistência do PT e dos aliados à causa democrática de fazer cumprir a risca os prazos do processo no senado. Não serão os argumentos dos advogados nem o testemunho de técnicos que irão convencer os senhores senadores. O processo contra Dilma nada tem a ver com legalidade, prazos e normas nem com fundamentação jurídica. É um processo político no pior sentido do termo O momento de votar é agora enquanto o povo está nas ruas, enquanto Temer não consegue sequer formar o ministério e nem fazer agrados à classe média. O momento é de ir logo para o voto e tirar proveito do oportunismo dos senadores "indecisos". Agora é a hora de fechar o caixão de Temer e enviar logo pra Transilvânia.




O papagaio falador





            Durante anos, a mulher tratou de ensinar o papagaio a falar. Parecia inútil.O bicho olhava para ela com seu olhar de ave e não repetia a lição. A mulher desanimava por uns tempos, mas, por amor ao bichinho ou por vaidade de mestra, voltava às aulas com redobrado afinco.
            Um dia, afinal o papagaio, que se chamava Alfredo, falou. Repetiu tal qual a mulher tratara de ensinar-lhe aqueles anos todos. A alegria da mulher foi imensa. Seu trabalho fora compensado.
            Agora, mal vê sua dona aproximar-se, o louro fala: _Currupaco. Como ela ensinou.




terça-feira, 7 de junho de 2016

Meus versos





Aos meus versos
a galhofa
o pouco caso
o desdém
pois se não os lês
que graça têm?




segunda-feira, 6 de junho de 2016

E eu ali




 E eu ali, encostado à parede sob a marquise estreita.
 A chuva caindo.
 As gotas redondas, gordas
 respingando nos meus pés.
 O vento. A madrugada fria.
 E eu ali, sem cigarros sem esperança sem vontade.
 nem dor nem medo. Sequer tristeza.
 A velha bicicleta por companhia.
 E eu ali. Os pés na terra tão perto do mar.
 O rugido das ondas gritando coisas que eu não entendia.
 E eu ali querendo frouxamente que a chuva amainasse
 olhando a corredeira crescer junto ao meio fio.
 A água rolando galhos, papéis, lembranças
 pedaços indefiníveis de coisas mortas.
 E eu ali ainda à espera de que alguém cantasse ou se atirasse pela janela.




A vitrine e o menino





            Eu era um menino de bairro. De um bairro da província. Um dia minha família se mudou pro Rio. Fui morar no Bairro Peixoto, um dos cantinhos mais lindos de Copacabana. Rua Maestro Francisco Braga. Rua sem saída junto a uma praça com chafariz e tudo. O mar eu já conhecia de outra viagem. Meu pai, que era carioca, havia nos levado, alguns anos antes, de férias para a Cidade Maravilhosa onde minhas muitas tias nos receberam e nos passearam sem me dar tempo para o deslumbramento.
            Ainda me lembro das primeiras impressões que tive da mudança. Tudo me parecia muito chic no Rio. A padaria nem se chamava padaria e sim panificadora e no supermercado ( o primeiro em que entrei na vida) as marcas e a quantidade de produtos me deixavam embasbacado. Eu que só comia o pãozinho, a bisnaga ou o pão de meio-quilo conheci o pão de forma que achei a coisa mais sofisticada do mundo. (Ainda que a palavra sofisticada não fizesse parte do meu vocabulário). Havia duas marca de pão de forma: Plus Vita e Pulmam. Minha mãe comprava o Plus Vita, tia Alina, o Pulman. O leite e a manteiga também ofereciam opções. Ou eram da CCPL ou da  Vigor.
            As ruas sempre cheias de gente eram o oposto das ruas calmas e pouco povoadas do Prado e do Calafate que eu aos 8 anos percorria solitário nas tardes mortas de Belo Horizonte. Não havia, pelo que me lembro, nada que me incomodasse naquela Copacabana dos anos 60, pelo contrário. Eu adorava o burburinho, a multidão, os ônibus que comecei a tomar sozinho e que davam carona para os que estavam com o uniforme da escola. Aprendi a dizer garoto em vez de menino e pipa no lugar de papagaio.
            Dentre todos os encantamentos que experimentei nos primeiros tempos de Rio de Janeiro houve um que superou todos os outros. Foi a Galeria Menescal. Tudo era lindo naquela galeria:  as lojas, o piso, as pessoas que passavam com aquele jeito que depois de muitos anos eu aprendi que era um jeito zona sul carioca de ser. Mas não era só isso. A última loja, do lado esquerdo para quem descia da Barata Ribeiro para a Av. Nª. Sª. de  Copacabana, era uma floricultura que além dos buquês, coroas e todo tipo de arranjos florais tinha uma vitrine da qual escorria água. Toda ela. Do alto até quase ao piso a água escorria sem parar por entre dois vidros turvando a visão do interior da loja. Era uma beleza, uma espécie de mágica, coisa de filme. Dava vontade de tocar a água intocável, de bebê-la. Na volta da escola eu caminhava uns quarteirões a mais só para passar por ali.
            Nunca deixei de gostar da galeria e da vitrine molhada da floricultura. Mesmo quando já não havia o encantamento do menino, havia a alegria de lembrar de ter sido menino e encantado. Uma noite, já rapaz, passei pela Galeria Menescal. Estava com ela, caminhávamos de mãos dadas. Eu olhava o piso e sentia o cheiro de mar que vinha de seus cabelos. Estava apaixonado e feliz. Naquela noite, em frente à vitrine da floricultura meu coração voltou a ser de menino.

domingo, 5 de junho de 2016

Serra, o anti-diplomata



Nem todo cara simpático é pilantra, mas todo pilantra é um cara simpático. Não existem embusteiros carrancudos assim como não os há mal vestidos. É uma exigência para o exercício da impostura: boa roupa e um sorriso nos lábios. Toda vez que cruzo com simpaticões profissionais fico com o pé atrás. O mesmo me acontece quando conheço otimistas e bem humorados de tempo integral.
Mas além da pilantragem há outras ocupações que exigem, ao menos, um tanto de simpatia, bom humor e otimismo. A diplomacia é uma delas e os americanos sabem disso.
Lindon Gordon, em cujos escritórios na embaixada americana foi tramado o golpe de 64, era uma simpatia de pessoa. Falava bem o português sem mescla-lo com o castelhano e fazia boas piadas. Dizia o diplomata, para atacar Cuba, que o país de Fidel era o maior país do mundo, pois, segundo ele, o povo estava em Miami, o exército na África e o governo em Moscou. Certamente, Gordon seguia os ensinamentos de Ted Roosevelt que dizia que para tratar com latino americanos havia que levar um sorriso nos lábios e um porrete nas mãos.
O governo fajuto de Temer parece não crer muito na simpatia diplomática. A comprovação disso é a escolha de José Serra para o Ministério das Relações Exteriores. O vampiro da pauliceia é famoso pelo mau humor e por não ter um amigo sequer. Mas não podemos pensar que a escolha foi equivocada. De jeito nenhum.
Assim como a ausência de mulheres e de negros no ministério de Temer. a escolha de Serra para as relações exteriores joga no campo do simbolismo. O ministério totalmente masculino, branco e rico passa a mensagem de que o poder voltou para a varanda da casa grande. Serra comandando a diplomacia mostra que papel o Brasil pretende desempenhar na geo-política latino-americana e do hemisfério sul em geral.
As primeiras notícias sobre a atuação de Serra nos Ministério das Relações Exteriores nos contam que o chanceler mandou fazer um levantamento sobre o custo das embaixadas na África. Certamente o Brasil terá menos representação naquele continente e voltará suas atenções para o circuito Elizabeth Arden que, além de charmoso, é onde se fazem os "negócios". Serra também andou fustigando os países vizinhos que, assim como os eurodeputados e grande parte da imprensa internacional, não aceitaram o golpe palaciano que afastou a Presidenta Dilma. O novo chanceler deu de usar o termo "bolivariano" com a mesma conotação pejorativa que usa a direita mais botinuda do país.
Serra, que já chamou o Brasil de Estados Unidos do Brasil (denominação que deixou de existir nos anos 60) e não sabe o que é a NSA, não parece talhado para as relações internacionais, mas cumprirá seu papel de lacaio das potências do norte e vendilhão da riqueza nacional. Isso, é claro, se esse governo se mantiver até as próximas eleições.




A carestia na infância





            Falam que as crianças de hoje comem muita porcaria, muitos doces, muito açúcar. Dizem que antigamente era diferente. Não era bem assim, posso afirmar, e me refiro a fatos de mais de 50 anos atrás.
            Quando eu tinha uns 8 anos aprendi com um amigo a tirar todo o miolo do pãozinho e enchê-lo de açúcar. Depois aprendi que se podia fazer o mesmo com o tomate. Era só cortar a extremidade e enfiar o dedo para arrancar sementes e o que mais havia e meter o açúcar cristal. Ficava uma delícia.
É certo que não tomávamos refrigerantes. Isso era para os meninos ricos. Nós tomávamos Ki-suco e púnhamos açúcar no Ki-suco. Muito açúcar.
            Antes de conhecer esses truques açucarados o doce mais apreciado vinha daqueles pirulitos em forma de cone que eram vendidos nas ruas enfiados num tabuleiro todo furado. Quem já provou sabe que havia que comer também o papel que os envolvia e não desgrudava do pirulito por nada desse mundo. Algodão doce só quando aparecia a carrocinha no bairro, o que raramente acontecia. Em casa minha mãe fazia banana caramelada e nos aniversários e outras festas havia brigadeiro, cajuzinho e língua de sogra feitos por minha avó. E tinha as balas.
            Balas sempre foram baratinhas. Meu pai todo dia quando saía para trabalhar, depois de ter almoçado em casa, me dava uma nota de 1 cruzeiro para comprar balas. Ainda me lembro daquele bilhete azul com a figura do Almirante Tamandaré. De vez em quando eu ganhava uma nota de 10 e então era a dúvida: um Diamante Negro com seus cristais que estalavam nos dentes  ou um Laka, branco e pegajoso que grudava no céu da boca? Mas essa prodigalidade só ocorria , creio, quando meu pai recebia o salário; o ordenado, como se dizia então. No dia a dia era o Almirante, e no  bar da esquina da Rua Platina eu comprava 5 balas com aquele cruzeiro.
            Um dia o vendeiro em vez de me entregar as 5 balas de sempre me deu apenas 3. _"Agora é 3 por 1 cruzeiro", ele disse. Fiquei decepcionado. De noite contei para meu pai, mas no dia seguinte recebi dele a mesma nota do Almirante Tamandaré. Passei a odiar o Almirante e seu baixo poder aquisitivo. A inflação, que naquela época era conhecida por carestia, vinha turvar minha infância. Naquele dia, senti o mesmo que sentiria o Michelzinho se viessem lhe contar que sua carteira de imóveis estava reduzida a um quarto e sala no edifício Copam.