segunda-feira, 24 de abril de 2017

Topadas





Melancolias, charutos e vinhos finos
eu deixo para os que deles fazem bom uso
Prefiro os sentimentos e paladares fortes
esse tabaco preto, essa cachaça, esse rancor

Às nuvens prefiro o chão que calco
com os sapatos e a alma gastos
carícia de pedregulhos e saudades
São as topadas que me levam adiante.






















segunda-feira, 17 de abril de 2017

O trapezista César Galindo





Quando era menina
Se apaixonou por César Galindo
o trapezista moreno vestido de lantejoulas
e sonhou em fugir com o circo

Muitos anos depois
e distante muitos quilômetros
da cidade onde nascera
encontrou o mesmo circo

Com o coração aos pulos
aproximou-se de um moço moreno
que mostrava os mesmos músculos de César Galindo
o mesmo cabelo de César Galindo
o mesmo sorriso de César Galindo

Imaginou-o no trapézio com a roupa colante
coberta de lantejoulas
numa tríplice pirueta
sob o rufar dos tambores

Perguntou-lhe se era trapezista
ele disse não
também não era domador
nem mágico nem malabarista

Mas afinal o que fazia ele no circo?
O rapaz ajeitou seu cabelo à César Galindo
e disse-lhe com seu sorriso de César Galindo:
_Solda e eletricidade.





domingo, 9 de abril de 2017

Mosca





A mosca
azul e zumbideira
pousou
no prato de macarrão
azar dela.
A mosca subestimou
minha fome.




sábado, 1 de abril de 2017

Parafusos





            Você vai desmontar um troço que tem uns oitenta parafusos. Vai desatarraxando um por um e chega naquele que não sai nem pelo diabo. Você bota óleo, dá aquela marteladinha que só você sabe dar, tenta usar outra chave e nada. Bem, você passa para o próximo e vai até o fim. Mas no final das contas tem de encarar o maldito. 
            Depois de uns dois litros de suor e alguns palavrões bem aplicados (a palavra tem poder) ele acaba cedendo, não de uma vez, mas aos poucos. Você se sente como o verdadeiro homo sapiens, aquele que sabe usar ferramentas como o homo habilis com a vantagem de saber usar também os devidos palavrões. Por fim a última volta e ele sai todo enferrujado, meio torto, derrotado e a porra que você tentava desarmar cai aos pedaços, pesada, maciça, dolorosamente sobre seu pé. Parece a vida.





quarta-feira, 29 de março de 2017

Tânia





Tânia fez curso de maquiadora
e largou a prostituição
conseguiu emprego num salão do subúrbio
e pra complementar a renda
faz salgados que vende para as moças do salão
e outros comerciários do bairro.

Os salgados fazem sucesso
e seu trabalho na maquiagem já é o mais requisitado
por noivas, madrinhas e sogras
Tânia é boa em tudo que faz

Me contou que de seus tempos de calçada
só sente saudades dos elogios que recebia
por seus seios pequenos e duros
e por seu pau sempre duro e enorme.




terça-feira, 21 de março de 2017

18 anos





Entre as manhãs sonolentas
e as noites ociosas
as tardes me escorriam
entre os dedos.