domingo, 1 de abril de 2018

O povo preto da favela







            Estão matando o povo preto da favela
            Sempre mataram o povo preto da favela
            Na ditadura, na democracia
            de noite e de dia
            a céu aberto. Sempre quem morre
            é o povo preto da favela.

            Quando a oposição era situação
             se matava o povo preto da favela
             quando virou o barco
             continuou-se matando o povo preto da favela


            O rapaz preto foi preso com um frasco de desinfetante
            e a porra de um baseado e um papel
            foi condenado por "associação para o tráfico"
            e isso quando quem mandava era a oposição
            que era situação.

            O rapaz pegou tuberculose na cadeia
            mas quem foi solto foi o médico estuprador
            e o filho da desembargadora
            com cem quilos de bagulho nas costas
            e munição de grosso calibre

            Estão matando o povo preto da favela
            Como sempre mataram
            Desde Zumbi, desde sempre
            desde que existe o povo preto da favela.
         
         
         

segunda-feira, 19 de março de 2018

terça-feira, 13 de março de 2018

Decepção






            Ela marcou encontro comigo em São Cristóvão. Era um domingo e fazia um calor de rachar mamona. Eu não tinha dinheiro nem pra passagem e fui a pé desde o Meier, Esperei umas duas horas, tomei água da bica num botequim, servida com uma má vontade de secar a alma. Estava apaixonado e ela era um monumento. Por fim desisti e fui chorar as mágoas na casa de uma amiga em comum que tínhamos e morava por aquelas bandas.
            Já cheguei contando o acontecido e cuspindo marimbondo de raiva e decepção. Minha amiga fazia sinais que eu demorei uns segundos pra compreender. Ela estava tomando banho com um outro cara no banheiro da casa. Não fiquei para confronta-la. Acho que nesse tempo eu ainda tinha pudores. Sobre os calcanhares, dei meia volta e voltei a pé para o Meier. A noite já vinha caindo, a camisa empapada, os olhos e a garganta secos
            Foi só decepção, não sofri de amor. Parece que eu já sabia que essa dor estava me esperando, Um ano depois eu conheci o que é sofrer de amor.












Meu primeiro "selfie"







            Há quem pense que fora da temporada de verão não passe nada na Garopaba. Comigo passa. Se não, mire e veja.
            Hoje foi um desses dias que não se decidem: uma hora o sol parecia que ia se impor e poucos minutos depois o céu se cobria de nuvens que , se não ameaçavam chuva grossa, faziam supor alguma garoa, algum chuvisco. E eu, que só gosto de praia quando tem sol de arrebentar mamona, resolvi dar umas voltas na praia central. Praticamente não havia praia. A maré alta levou as ondas até os muros e paliçadas das casas dos ricos que ficam à beira mar. Isso vem acontecendo de uns anos para cá, mas não se preocupe pela propriedade dos burgueses, pois a prefeitura e empresas privada já colocaram toneladas de areia extraída das dunas do Siriú (reserva ecológica da Serra do Tabuleiro) para proteger das ondas bravias as residências desses homens de bens.
            Mas lá ia eu na minha caminhada quando um sujeito me parou educadamente e pediu um minutinho de minha atenção. Por um momento eu julguei tratar-se de um crente de sunga. Eu nunca  não sou agressivo com os crentes, apenas digo que sou ateu e deixo que eles sejam agressivos comigo ou me olhem com aquele olhar de espantar Satanás. Não era um crente de sunga, mas apenas um cara que queria tirar uma foto minha. Disse ele, que eu me parecia com um personagem de um filme ou de uma série (não sei bem) que era um náufrago. Fez questão de procurar no seu "smartphone" uma foto do tal personagem. Não vi nenhuma semelhança além da barba. O carta do filme é branco e bem mais jovem. Assenti em tirar a foto e comprazer o sujeito. Me afastei uns metros para o clic, mas ele queria uma foto de nós juntos e pediu que eu tirasse os óculos. Abracei-o pelo ombro e, depois de uma tentativa frustrada, tiramos a foto. Foi meu primeiro selfie e do primeiro selfie ninguém esquece.





segunda-feira, 5 de março de 2018

A mulher mais linda do mundo





A mulher mais linda que conheci
tinha nariz de boxer
e pés virados  pra dentro

Tinha dedos dos pés
que ela (de vergonha) escondia na areia
quando ia à praia

A mulher mais linda que amei
não tinha cabelos de propaganda de shampu
nem andar de passarela.

Eu achava que ela era
a moça mais bonita de Copacabana
mais hoje eu sei

que ela é a mulher mais linda do mundo.




sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Confissões





            Sexta-feira, 13. Ainda não anoiteceu, mas já me imagino num terreno baldio tendo por única companhia uma rodrigueana cabra vadia. O terreno baldio é o lugar sagrado das confissões e a cabra, o único ser vivente que merece escutá-las
            Vamos às confissões.
            Eu uso pochete. Sim. Discretamente, sob a camisa, fazendo prolongamento da barriga e não sobre ela. É uma pochete Mormaii, que achei no lixo. Sim, eu pego coisas no lixo. Resolvi antecipar umas manias de velhos: pochetes, lixo utilizável, blog, coleção de garrafas vazias... Sei que não viverei por muito tempo e quero usufruir dessas franquias de ser um velho maluco.  Mês que vem inauguro os resmungos e em 2018, vou começar a me fingir de surdo.
            Mas a pochete tem me trazido outras coisas velhuscas. Por exemplo: eu morro de medo de perder a pochete. É nela que carrego meu Minister e o isqueiro Bic, elástico para prender o cabelo em caso de ventania, uma merreca e um alicate de corte. (Não me pergunte o motivo de carregar o alicate de corte. É coisa de velho). E além do mais a pochete foi encontrada em estado de nova. Certamente um presente rejeitado por um velho que não se vê como tal. Me daria muita lástima perdê-la.
            Há outras coisas que gostaria de levar na pochete: uma lanterna pequenina, um ímã e algum remédio. (Aspirina serve). Também poderia levar um pouco de maconha terapêutica num bolsinho metido a secreto que há na parte de trás. E ainda caberia a caixa de óculos de leitura, mas como todo neófito nas lides da velharia, eu sempre esqueço os óculos e fico tentando ver a data de validade dos produtos do supermercado afastando as embalagens tanto quanto o braço alcança.
            Como todo velho recente e inaugural, meu medo, confesso, não é a guerra nuclear, não é a epidemia de ebóla nem sequer o Dória na presidência, meu medo é perder a pochete.
            Por hoje, basta de confissões. Dorme cabrinha, dorme.